“A função da arte não é de passar por portas abertas, mas a de abrir portas fechadas” (Ernst Fisher)
Libertar. Essa é a função maior que Ernst Fischer (1899-1972), poeta, escritor, filósofo e jornalista austríaco, atribuiu a arte. Em seu livro “A necessidade da arte” ele defende que embora a arte tenha seu lado mágico, a mesma deve esclarecer e provocar a ação.
Significando técnica ou habilidade, a arte é entendida como atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias. Porém, uma obra de arte não lida apenas com os sentimentos de quem faz, mas também de quem a analisa. Com característica libertadora, a arte pode estimular as pessoas a mudarem a sua visão de vida perante a sociedade. No documentário “Lixo Extraordinário”, encontramos um exemplo disso. Em uma iniciativa do artista plástico Vik Muniz, trabalhadores do Jardim Gramacho (o maior aterro sanitário da América Latina, ) encontram através do meio artístico uma oportunidade de alcançar objetivos.
O mestre em Literatura e Interculturalidade e doutorando em Psicologia Clínica, Taciano Valério, explica que no campo terapêutico, as manifestações artísticas são uma forma da pessoa se encontrar no mundo: “A arte quando bem conduzida pode fazer com que o sujeito comunique-se através dela. Pessoas que usam drogas, por exemplo, muitas vezes utilizam essas substâncias como forma de fugir da realidade, que até agora se manteve tão crua, difícil de suportar. A arte pode torna-se uma substituta nesse processo de fuga, libertando, não aprisionando. Ela liberta porque dá um sentindo na vida para o sujeito.”
No caso do documentário, alguns catadores foram selecionados com objetivo inicial de retratá-los utilizando os instrumentos do ofício deles: materiais recicláveis. Mas o trabalho sugere a eles uma maneira de reimaginar suas vidas fora daquele ambiente. Uma das catadoras chega a dizer: “Parei de me ver com um mulambinho e comecei a me enxergar como pessoa. Esse trabalho me fez ter vontade de mudar.”
Seja música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura ou cinema, as manifestações artísticas mexem com a sensibilidade. Elas são mais que simples desenho em um quadro, uma simples estátua, ou uma peça teatral. Podem apresentar para o receptor um momento de reflexão que ajude na resolução de algum problema. Uhelio Gonçalves, 19 anos, artista teatral desde os dez, diz: “A essência do teatro como arte é levar o público a parar e pensar no que realmente é importante para nossa vida.” O artista também pode superar algum medo ou através do teatro, segundo ele: “Acredito que muitos quando iniciam o teatro tem medo de falar em público, de se expressar. Nele fazemos uma imensidão de exercício onde deixamos isso de lado.”
Até mesmo conflitos familiares podem ter um final feliz através do teatro (o que pode acontecer com qualquer tipo de arte): “É o que na maioria das vezes acontece. No meu caso, eu estava em um dos meus primeiros espetáculos e havia brigado com meu pai. O personagem que estava interpretando era justamente um adolescente revoltado com a família, daí parei e pensei que na história acontecia o mesmo que estava acontecendo comigo, então porque não tentar na vida real? Conversei com meu pai e deu tudo certo.”, declarou Uhelio.
Independente do meio artístico, para que haja essa liberação de sentimentos, é necessário que a pessoa realmente se envolva de maneira profunda com a arte, trazendo ela para o dia a dia. “Não podemos pensar que qualquer manifestação artística é condição de libertação. Depende de como o sujeito se relaciona com o objeto artístico”, concluiu o psicólogo Taciano.









